Discípulo Impaciente
Após uma exaustiva sessão matinal de orações no monastério de Piedra, o noviço perguntou ao abade:
Todas estas orações que o senhor nos ensina, fazem com que Deus se aproxime de nós?
Vou responde-lo com outra pergunta – disse o abade. – Todas estas orações que você reza irão fazer o sol nascer amanhã?
- Claro que não! O sol nasce porque obedece a uma lei universal!
Então, esta é a resposta à sua pergunta. Deus está perto de nós, independente das preces que fazemos.
O noviço revoltou-se
- O senhor quer dizer que nossas orações são inúteis?
- Absolutamente. Se você não acorda cedo, nunca conseguirá ver o sol nascendo. Se você não reza, embora Deus esteja sempre perto, você nunca conseguirá notar Sua presença.
Paulo Coelho
| | Comentar »O Cesto De Junco
- Mestre, por que devemos ler e decorar a Bíblia se nós não conseguimos memorizar tudo e com o tempo acabamos esquecendo? Somos obrigados a constantemente decorar de novo o que já esquecemos.
O mestre não respondeu imediatamente ao seu discípulo.
Ele ficou olhando para o horizonte por alguns minutos e depois ordenou ao discípulo:
- Pegue aquele cesto de junco, desça até o riacho, encha o cesto de água e traga até aqui.
O discípulo olhou para o cesto sujo e achou muito estranha a ordem do mestre, mas, mesmo assim, obedeceu. Pegou o cesto sujo, desceu os cem degraus da escadaria do mosteiro até o riacho, encheu o cesto de água e começou a subir de volta.
Como o cesto era todo cheio de furos, a água foi escorrendo e quando chegou até o mestre já não restava nada. O mestre perguntou-lhe:
- Então, meu filho, o que você aprendeu?
O discípulo olhou para o cesto vazio e disse, jocosamente:
- Aprendi que cesto de junco não segura água.
O mestre ordenou-lhe que repetisse o processo de novo.
Quando o discípulo voltou com o cesto vazio novamente, o mestre perguntou-lhe:
- Então, meu filho, e agora, o que você aprendeu?
O discípulo novamente respondeu com sarcasmo:
- Que cesto furado não segura água.
O mestre, então, continuou ordenando que o discípulo repetisse a tarefa.
Depois da décima vez, o discípulo estava desesperadamente exausto de tanto descer e subir as escadarias.
Porém, quando o mestre lhe perguntou de novo:
- Então, meu filho, o que você aprendeu?
O discípulo, olhando para dentro do cesto, percebeu admirado:
- O cesto está limpo! Apesar de não segurar a água, a repetição constante de encher o cesto acabou por lavá-lo e deixá-lo limpo.
O mestre, por fim, concluiu:
- Não importa que você não consiga decorar todas as passagens da Bíblia que você lê, o que importa na verdade, é que através deste processo a sua mente e a sua vida ficam limpos diante de Deus .
| | Comentar »Sabedoria Sufi em Pílulas
“Não olhem para mim! Melhor, tomem o que há em minhas mãos.”
“A ciência se aprende com palavras, a arte pela prática, o desapêgo com o companheirismo.”
Mevlana Rumi
Quando um dervixe saúda a outro, ele não diz “Como estas?”
O derviche faz uma leve reverência e logo diz: “que maravilhoso ver a Deus manifesto em teus olhos!”
Logo, o segundo dervixe poderia responder: “Ah! Se não fora pelo Amor em teu coração, não seria possível a você ver a Deus em meus olhos.”
Ah! Poderia dizer de novo o primeiro dervixe “porém se não fora pelo Amor Divino, mostrado através de ti, não seria possível para ti dizer o que disseste, que o Amor estava mostrando-se no meu coração.”
Ah! poderia dizer o segundo dervixe “se não fora pela Presença Divina não poderíamos ser conscientes um do outro.”
Eles logo se abraçariam e seguiriam seus caminhos.
A Presença Divina está sempre, em todo o lugar, ao mesmo tempo.
Assim tem sido sempre e assim sempre será.
Nada se perde no Absoluto, está sempre ali.
Quando somos conscientes, estamos apaixonados.
Trecho de “Passos Até a Liberdade”, de Reshad Feild.
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Um dia um asceta visitou um amigo, um velho dervixe.
O velho dervixe estava com outros três visitantes.
Este preparou para seus convidados uma comida muito simples,
porém o asceta comeu somente uma ervilha.
Depois da comida, o velho dervixe tomou a seu lado o amigo
asceta e lhe disse: “bem, se queres ser um asceta, está bem, mas
por favor, o faça em sua casa, porém aqui não tires o apetite dos meus
outros convidados”.
Na próxima oportunidade, o asceta compartilhou a comida com os demais.
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Perguntaram a um dos anciãos de Damasco:
- “Qual a verdadeira natureza do sufismo?”
Ele respondeu:
- “Antigamente, os sufis eram um grupo de homens universais, preocupados exteriormente com as coisas perecíveis, mas satisfeitos em seu interior. Agora, estão exteriormente satisfeitos e interiormente preocupados”.
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“Não procures companhia em cinco tipos de homens, isto é:
Um homem falso que te engana como um ilusionista
Um tonto que não pode te trazer benefício (ainda que tentasse faze-lo te
faria mal com sua estupidez).
Um miserável que quando mais necessitas de ajuda, se afasta de ti
Um covarde que te deixará quando estejas em perigo
Um malvado pecador que te venderá por um pedaço de pão.”
Al Sadiq ( O veraz) – do livro Ensenanzas Sufis ( Al Ghazali)
| | Comentar »O Silêncio Que Supera O Bem E O Mal
Perguntaram a um homem eminente que havia viajado muito ao
redor do mundo se poderia falar sobre alguém que tivesse conhecido.
Ele respondeu: “Viajei pelos sete climas, mas no mundo inteiro não vi mais
que um homem e meio.
A unidade foi um homem que morando numa zawya não falava nada de bom nem
nada de mal de ninguém.
A metade era um homem excelente nisto, que das pessoas somente falava o
bem.”
Enquanto o bem e o mal te acompanharem, não terás coração clarividente nem
alma consciente; mas depois que deixes um e outro, tua alma será absorvida
dentro do segredo da santidade.
“Le Livre Divine”(Ilahi Nama), Farid ud din Attar
Idolatria para cima
Alguém pede a um sufi:
— Ensine-me a rezar.
— Não somente você já está rezando — diz o sufi — mas uma parte de teu espírito está constantemente ocupada com rezas.
— Eu não compreendo, — replica o outro — já fazem alguns meses que sou incapaz de rezar a Deus, não sei por que razão…
— Você me disse: “ Ensine-me a rezar.” Você não tinha mencionado Deus. Ora a oração em que estás absorto há vários meses está endereçada a seus vizinhos, porque tu te preocupas constantemente daquilo que eles pensam de você. Você faz também uma permanente oração ao ídolo do dinheiro, pois é dinheiro que você deseja. Tua reza se endereça ainda a uma imagem da segurança e à uma imagem da abundância. Se você tem tantos deuses e se você reza tanto ao ponto que isto constitua uma parte permanente de teu ser, é porventura espantoso que não tenhas lugar para outro tipo de oração?
Do livro “O Buscador da Verdade” de Idries Shah
| | Comentar »O Homem que se Enfurecia com Facilidade
Um homem que se enfurecia facilmente tomou consciência, depois de já ter vivido muito, de que sempre se encontrara em dificuldades por causa de tal propensão.
Certo dia, ouviu falar de um dervixe dotado de conhecimentos profundos e foi procurá-lo, a fim de pedir-lhe conselho.
E o dervixe lhe disse então:
- Vá a uma determinada encruzilhada. Ali encontrará uma árvore seca. Fique debaixo dela e ofereça água a todo viajante que passar.
O homem fez o que lhe fora dito. Transcorreram muitos dias, e ele passou a ser conhecido como alguém que estava obedecendo a certa disciplina de caridade e autocontrole, sob a orientação de um homem de real conhecimento.
Um dia, um homem que vinha muito apressado, recusou com um gesto de cabeça a água que lhe era oferecida e seguiu em frente pela estrada. O homem que se irritava com facilidade gritou várias vezes:
- Volte e retribua a minha gentileza! Beba um pouco desta água que eu ofereço a todos que passam por aqui.
Mas não obteve resposta.
Fora de si devido a tal procedimento do viajante, o homem esqueceu de todo o seu treinamento de autocontrole. Apanhou seu revólver que estava pendurado num galho da árvore ressecada, apontou para o viajante descortês e fez fogo. O homem caiu morto.
No exato momento em que a bala penetrou no corpo do viajante, a árvore seca, como que por milagre, renovou-se e floriu radiante.
O homem que acabara de ser morto era um assassino, a caminho de cometer outro crime, o pior de sua longa carreira.
Existem, como podem perceber, duas espécies de conselheiro. A primeira inclui aqueles que dizem o que deve ser feito, baseando-se em determinados princípios fixos, repetidos mecanicamente. À outra classe pertence o Homem de Conhecimentos. Os que o encontram lhe pedirão conselhos moralizantes, e o tratarão como a um moralista.
Mas ele é servidor da Verdade, não de esperanças piedosas.
Diz-se que o mestre dervixe que aparece neste conto foi Najmudin Kubra, um dos maiores santos sufis. Fundou a Kubravi (“Irmãos Maiores”) que muito se assemelhava à Ordem criada por S. Francisco de Assis. Tal como o grande Santo, Najmudin tinha a reputação de possuir misterioso poder sobre os animais.
Najmudin foi uma das seiscentas mil pessoas mortas quando Khwarizm, na Ásia Central foi destruída em 1221. Diz-se que o Grão Mongol Gengis Khan, sabedor de sua reputação, prometeu perdoar-lhe a vida caso se entregasse. Mas Najmudin se uniu aos defensores da cidade e foi mais tarde identificado entre os mortos.
Tendo previsto a catástrofe, Najmudin enviara a lugar seguro todos os seus discípulos pouco tempo antes da invasão das hordas mongólicas.
Extraído de ‘Histórias dos Dervixes’ Idries Shah
| | Comentar »No Deserto
Transmitida desde os tempos mais remotos, aqui está a história do homem do deserto e de sua busca, que foi contada nas cidades e vilarejos e que tem despertado a compreensão sufi mesmo quando narrada em condições muito diferentes daquelas onde se diz que ela nasceu.
A História Do Santo E Do Falcão
Um caçador do deserto encontrou por acaso um contemplativo sentado no deserto de areia, a mão sobre seu bastão e o braço em torno de um falcão de feio aspecto, aninhado em seu peito.
O caçador lhe diz:
- Como é possível que um homem como você, que se devotou aos negócios do Outro Mundo, possa dar importância a uma coisa tão insignificante quanto um pássaro, que além de tudo é uma ave de rapina?
O sábio lhe disse:
- Responda à seguinte pergunta e tua resposta será idêntica à minha resposta: porque razão você leva um punhal, que vejo pendurado ao teu lado, posto que tu deverias ter no coração o bem de teu semelhante?
O caçador disse:
- Esta faca está aqui para me proteger contra a crueldade dos leões do deserto que, por mais de uma vez, saltaram sobre mim do esconderijo onde se dissimulavam; sem o punhal, eu não poderia ter sobrevivido e não estaria aqui agora, vivo, para responder à tua pergunta.
O santo lhe disse:
- Se eu passasse todo meu tempo a contemplar e negligenciasse de consolar as criaturas de Deus, você poderia me tomar por um santo, quando em realidade eu teria me tornado incapaz de fazer qualquer outra coisa, de maneira que os impulsos superiores não mais me tocariam. E você, se você caçasse o leão desde a manhã até a noite, você passaria aos olhos das pessoas por um caçador intrépido quando, na verdade, essa paixão te teria tornado incapaz de fazer qualquer outra coisa – que não fôsse caçar.
Tu te terias tornado inapto para fazer a experiência das coisas deste mundo. Eu teria me tornado incapaz de fazer a experiência do Outro Mundo.
| | Comentar »“Reza” e “Um Sem o Outro”
Reza
Conta-se entre os sábios que certo ano de muita seca, os habitantes de Qasr al-Arifin foram pedir ao Mestre Bahaudin Naqshband para rezar pedindo a Deus para chover.
Ele lhes conduziu através das ruas da cidade até um local onde uma mulher estava sentada, embalando um recém-nascido nos braços.
- Eu te peço, faça o teu bêbe mamar – disse o Mestre.
- Eu sei quando devo dar-lhe leite – respondeu ela -, pois sou sua mãe. Porque te intrometes em coisas que são reguladas de uma forma que desconheces?
Bahaudin pede que sejam anotadas as palavras dessa mulher e as fêz ler em voz alta diante da multidão.
Um Sem Outro
Conta-se que um homem foi procurar Ahmad Yasavi, o mestre sufi do Turquistão, e lhe disse:
- Instrua-me sem livro, e faça com que eu aprenda a compreender sem a presença de um mestre entre mim e a Verdade, por quê os humanos são frágeis e a leitura dos textos em nada me esclarece.
Yasavi respondeu:
- Você acredita poder comer sem a boca? Pode você digerir sem estômago? Você gostaria também de caminhar sem pés e comprar sem pagar?… Eu só poderei fazer o que tu me pedes quando tu puderes abster-te dos orgãos físicos, você que deseja tanto poder se abster do que está previsto para os órgãos espirituais. Reflita um instante: pode você se nutrir sem aparelho digestivo, entrar em contato com os sufis sem nunca ter escutado falar por intermédio das palavras, estas palavras que você detesta tanto, e desejar a sabedoria sem que exista uma fonte apropriada ao teu estado? Imaginar que podemos aprender sem o suporte de livros e conhecer pela experiência sem a ajuda de um mestre, é sem dúvida um passatempo divertido. Da mesma forma que sonhar com magias e milagres.
Mas, diversão à parte, o que aprendemos realmente?
| | Comentar »O Monstro
Esta é uma história de outros tempos, antigamente contada por um povo que escutava a sabedoria. Hoje em dia, os membros desta comunidade não percebem mais os significados, então pouco importa que esta história lhes seja ou não contada, pouco importa se eles a conservaram ou a esqueceram.
Mas prossigamos…. Esta história é aquela de quatro homens que viviam no mesmo quarteirão e tinham todos os quatro estudado as artes teóricas e práticas com os maiores sábios da época e levado tão longe suas pesquisas que todo o mundo estava persuadido que eles tinham atingido os cumes do conhecimento.
Mas um dia eles chegaram à seguinte conclusão: eles tinham agora que viajar e exercer seus talentos, porque não é dito que “aquele que tem o conhecimento e não o utiliza é pior que o imbecil”?
Nossos amigos se fizeram viajantes e buscaram todas as ocasiões de colocar seus conhecimentos em prática. Um fato conhecido – já se sabia antes e comprovou-se depois – que três destes sábios eram grandes conhecedores das artes e das ciências, tanto na teoria quanto na prática, enquanto que o quarto, se era menos célebre, era dotado de compreensão.
Após alguns dias nos quais eles passaram a se conhecer melhor, e após inúmeros debates e muitas discussões, os três primeiros sábios reconheceram que eles estavam no mesmo nível e estimaram que o saber do outro companheiro estava bem longe de igualar o deles; eles o convidaram então a deixar o grupo e voltar para casa. Como o quarto sábio se recusasse a deixá-los, eles lhe disseram: “Esta atitude não nos surpreende vindo de um ser tão insensível como você, incapaz de apreciar as grandes competências que somos, e se obstinando a se pretender nosso igual.” Entretanto eles o permitiram acompanhar-lhes, embora o excluíssem de seus sábios conciliábulos.
Acontece que um dia, enquanto caminhavam, os quatro sábios descobriram na beira da estrada uma certa quantidade de ossos aos quais ainda se encontrava ligado um pouco de couro e pêlo – aparentemente os restos de um animal.
- Ah! – exclamou o Primeiro Sábio – com todo conhecimento que possuo, eu posso afirmar que é a carcaça de um leão.
- E eu – agrega o Segundo Sábio – meu conhecimento me permite reconstituir seu corpo em sua forma verdadeira.
- Quanto a mim – adiciona o Terceiro Sábio – eu tenho o poder de reanimar o inanimado e posso então injetar-lhe a vida.
Eles decidiram empregar seus talentos respectivos para fazer aquilo que sabiam fazer.
Mas o Quarto Sábio, puxando-os pela manga, lhes diz:
- Devo vos advertir que, ainda que vocês recusem minha competência e minhas capacidades teóricas, eu sou apesar de tudo um homem de compreensão. Efetivamente, como vocês perceberam, isto são os restos mortais de um leão. Tragam-no de volta à vida e ele nos aniquilará a todos!
Mas os três outros estavam bem mais interessados pela perspectiva de aplicar suas teorias e de continuar suas experiências. Num espaço de alguns minutos, o monte de couro e ossos se reveste de carne e eles viram se reconstituir diante de seus olhos um animal vivo, respirando e efetivamente muito perigoso – um leão.
Enquanto os práticos do saber estavam inteiramente voltados à sua operação, o Quarto Sábio subia nos mais altos galhos da arvore mais próxima, de onde pode assistir ao fim da experiência: ele viu o leão se lançar sobre seus companheiros, os devorar e desaparecer rugindo no deserto.
O único sobrevivente da expedição desceu da arvore e retornou ao seu país.
| | Comentar »A Arte Que Ninguém Possui
Era uma vez, em tempos muito antigos, em um grande império, um jovem vivo e inteligente que por sua aptidão em aprender e sua dedicação impressionava a todos.
Ele vivia não distante de uma cidade com sua mãe, que era viúva.
Um dia, ela lhe disse:
- Anwar, meu filho, é preciso que penses seriamente a te estabelecer na vida. É verdade que ajudas os fazendeiros como todos os jovens da tua idade e, quando não há nada para fazer, ficas em casa trançando cestos. Você faria melhor em se casar ou de sair para buscar fortuna pelo mundo. Em todo caso é assim que vejo as coisas.
- Mãe – disse o rapaz – é exatamente isto que eu quero fazer! Eu poderia ficar aqui com você e me engajar numa fazenda, ou então sair em busca de aventura do outro lado do mundo. Ao invés disso, eu decidi de não me afastar muito de nossa casa e, ao mesmo tempo, tornar-me alguém importante: eu me casarei com a filha do imperador e viverei feliz para sempre!
- As pessoas de nossa posição não tem por hábito alimentar tais idéias – disse a velha senhora. – São raros, em nosso meio modesto e trabalhador, aqueles que viram o imperador, e ainda mais raros os que viram sua filha! Quem é você, eu te pergunto, para fazer um pedido tão extravagante ao nosso soberano?
- Eu, mãe, não sou nada para ousar fazer isto mas você é diferente! Eu quero que tu vás ver o imperador e que você peça que a princesa seja sua nora!
Imaginem os sentimentos da pobre velha. É certo que Anwar era a “menina de seus olhos” , mas de qualquer modo, ter tais ambições era ir longe demais em ousadia e insolência.
- É insensato! – disse ela; e ela lhe deu tantas tarefas que, por um tempo, esse projeto saiu de sua cabeça.
Mas alguma coisa logo o fez relembrar da princesa e ele instiga sua mãe tanto e tão bem que ela cede, faz uma trouxa com algumas coisas indispensáveis e se põe a caminho para a capital do império.
Cada dia, a pobre mulher rodeava os limites do palácio. Ela observava as manobras dos luzentes guardas a cavalo, as idas e vindas dos embaixadores de países distantes, e, atrás das grandes muralhas, imaginava a sala do trono onde se sentava o imperador. As ruas estavam muito animadas, como são sempre as ruas das capitais; em todos os lugares haviam cortejos e desfiles de personagens importantes, todas manifestações contribuindo à edificação do povo.
Mas como fazer para ser admitida à presença do monarca?
Ela fez várias tentativas antes de se dizer: “Se o imperador não quer que eu vá até ele, devo esperar que ele venha a mim!”
E assim ela se colocou dia e noite ao exterior da grande mesquita onde, montando um cavalo branco, o imperador vinha rezar às sextas-feiras. Ali era grande o aglomerado de pessoas, mas ela acabou sendo notada porque ela se sentava sempre no mesmo lugar: esse lugar ela havia escolhido porque era onde o monarca fazia meia volta com seu cavalo para retornar ao palácio.
Uma sexta-feira, quando estava tranqüilamente sentada em seu lugar habitual, o imperador, colocando os pés no estribo, olhou em sua direção: ela rapidamente se levanta, as mãos em sinal de súplica.
- Conduzam essa mulher ao palácio! – ordena o imperador logo que viu seu gesto.
Alguns minutos mais tarde ela se encontrava sentada ao seu lado na sala do trono.
- Tu és pobre, ao que me parece – diz sua majestade. Se você espera de mim algum favor, fale!
Mas a mulher estava tão estupefata de se encontrar naquele lugar, em presença do ilustre personagem, que logo que abriu a boca para falar, nenhum som emitiu.
Vendo isto, o imperador mandou dar-lhe um saco de ouro e que a conduzissem à porta, dizendo aos que o rodeavam: – Dinheiro nunca é demais para essas pessoas.
Quando ela chega a sua casa, seu filho a enche de perguntas:
- Você viu o imperador?
- Claro, Anwar, que o vi!
- Pediu para falar-lhe?
- Sim.
- E que disse ele sobre a minha intenção de me casar com sua filha, a princesa Salma?
- Você está louco? Acredita que vestida de trapos como estava e ignorando tudo sobre as boas maneiras da corte, eu teria podido pedir uma coisa igual? A magnificência do lugar me paralisou e me tornou muda. Mas em sua grande bondade, Sua Majestade Imperial nos deu este saco cheio de ouro. Com isto, você poderá te estabelecer por sua própria conta, teu futuro está assegurado, você tem o bastante para o resto de teus dias. Esqueça então, te suplico, todas estas absurdas histórias de princesas!
- Mãe, o ouro não me interessa, é a princesa que eu quero – responde Anwar.
E ele recomeça a instigá-la tanto e tão bem que a contragosto ela se foi novamente para a capital.
Lá, uma vez mais, o imperador a vê, agachada em seu canto. Ele a faz vir ao palácio, pergunta de novo o que ela queria, novamente o medo a impede de falar e mais uma vez ele a faz voltar com um saco de ouro.
Assim que voltou à sua humilde cabana, ela troca com seu filho as mesmas idéias. O imperador era sem dúvida nenhuma generoso, mas Anwar não se contentou.
Ele diz à sua mãe:
- Tomei uma decisão: eu não vou ficar em casa. A existência confortável que este ouro me assegura, eu não aceito. Decidi ir em busca da filha do imperador; partirei amanhã pela manhã, e farei tudo para conseguir sua mão.
No dia seguinte, ao sol nascente, Anwar deixa a casa e toma um caminho através do bosque. No alto de uma colina, ele vê numa curva do caminho um sábio sentado de cócoras, com um chapéu pontudo sobre a cabeça, vestido com uma roupa feita de retalhos de pequenos quadrados cortados em pedaços e cuidadosamente costurados.
- Que a paz esteja convosco, Sua Presença o Dervixe – disse Anwar polidamente.
- Que buscas, pequeno irmão? – perguntou o dervixe.
- Eu busco um meio de chegar ao imperador para pedir-lhe a mão de sua filha, porque quero de qualquer maneira casar-me com ela.
- É difícil – diz o sábio. – A menos que você esteja pronto a primeiro aprender “A arte que ninguém possui”.
- Como isto é possível, se é uma “Arte que ninguém possui”?
- Ninguém a possui: se faz. – disse o dervixe. – E os homens não podem fazê-la se não tiverem alguma coisa, certas outras coisas. Quando eles têm essa coisas, a arte opera sozinha; por isso eles não têm, realmente, necessidade de possuí-la.
- Tudo isto é extremamente complicado- diz Anwar. – Mas você poderia me dizer como eu devo fazer?
- Claro. Você segue sempre reto, sem se deixar desviar por nada, seguindo fielmente o caminho sem pensar que possa haver outra coisa mais importante que o caminho que você está seguindo.
Anwar agradece o dervixe e retoma a caminhada. O caminho se mostrava sem fim diante de seus passos. Ele se alimentava como podia de frutos, de raízes e de bagos selvagens, e daquilo que lhe davam ocasionalmente. As vezes certas pessoas lhe propunham trabalho ou tentavam interessá-lo à profissão que tinham ou à sua atividade ou mesmo ofereciam-lhe suas filhas em casamento. Mas Anwar continuava avançando, ainda que com o passar do tempo tivesse mais e mais a impressão de que este caminho não o conduzisse a nenhum lugar.
Um dia finalmente, à hora do crepúsculo, ele percebe que havia chegado ao fim do caminho: ao invés de levá-lo às muralhas de uma importante fortaleza, o caminho o levava diretamente a um alto portão aberto sobre um muro fortificado.
Anwar ultrapassa a entrada.
O porteiro o interroga:
- Que estás procurando?
- A princesa. Decidi esposá-la.
- Você não pode passar se não tiveres uma finalidade mais razoável! – grita o guardião ameaçando-o com sua afiada espada.
- Bem! – disse Anwar – vou aprender “A arte que ninguém possui”.
- Ah, é diferente! – disse o guardião baixando sua arma. Mas – continua ele amigavelmente – alguém deve ter te falado disto porque habitualmente as pessoas imaginam que podem se aproximar da princesa diretamente.
Anwar entra e se encontra dentro dos muros de um imenso castelo. Ele repara dentro de um pequeno quarto uma pessoa em contemplação silenciosa. Ele se aproxima e reconhece o dervixe que ele havia encontrado na estrada há muitas luas!
- Como você finalmente chegou até aqui sem prestar atenção às tentações que apareceram pelo caminho, você vai poder se submeter à segunda prova. – disse o dervixe.
Ele introduziu Anwar em uma sala de meditação comprida e baixa onde, em fila, dervixes silenciosos descansavam, com a cabeça nos joelhos.
Anwar se sentou. Os dervixes começaram então seus exercícios, e ele se sente como que incitado a imitá-los. Quando terminaram, ele é levado ao Mestre Jardineiro que o colocou em seguida ao trabalho: ele teve que cavar e afofar a terra, molhar e limpar, se ocupar das plantas e abrir caminhos até que suas mãos ficassem tão doloridas quanto suas costas estavam curvadas. Ele trabalha assim por meses e meses.
Em seguida ele é conduzido à sala onde se encontrava o Mestre do Monastério, e cada dia ele tinha que ficar lá várias horas enquanto o grande homem o olhava sem nada dizer. E isto dura ainda mais tempo que seu primeiro trabalho.
Depois disto, Anwar foi colocado na cozinha onde trabalha como se fosse um escravo, preparando a comida de centenas de dervixes que viviam no monastério, dos visitantes e de todos aqueles que vinham participar às numerosas festas que organizava a confraria.
Anwar tinha a impressão de estar sendo útil tanto quanto tinha o sentimento de estar perdendo seu tempo, porque ele não parava de pensar na princesa e à “Arte que ninguém possui”.
Mas o pior ainda estava por vir! Chegou o momento onde ele não teve mais nada a fazer: não o convidavam para os exercícios, ele não tinha trabalho para fazer na cozinha, não precisavam dele no jardim. Nesse monastério viviam muitos outros jovens de sua idade que iam e vinham, e que tinham, a maioria, um ar de felicidade; de suas conversas com eles, ele não aprendeu muita coisa sobre a natureza da comunidade e o sentido de suas atividades, se é que elas tinham um sentido.
Muitos anos se passaram dessa maneira. Um dia finalmente Anwar foi convocado à presença do Mestre do Monastério. Assim que entrou na hujra, a peça onde se desenvolviam os encontros com o Mestre, ele viu que o velho homem ia cair dentro de um poço que vinha de se abrir no centro do piso. Anwar o deteve e o salva.
- Meu filho – disse o sábio dando-lhe uma chave – tome esta chave e guarde-a como se tua vida disto dependesse.
Anwar continua a trabalhar no monastério. Um dia, o chefe dos jardineiros manda chamá-lo. Ao chegar no jardim, ele vê uma árvore vacilar: ela ia cair sobre o sábio. Anwar corre e salva a vida do sábio.
- Meu filho – disse o mestre jardineiro – tome esta pedra de cristal e guarde-o como se tua vida disto dependesse.
Ele volta a seu trabalho. Muito tempo depois deste acontecimento, Anwar foi chamado pelo chefe da cozinha. Quando ele se apresenta diante do chefe, o jovem vê que o cozinheiro ia retirar uma concha fervente de uma panela que estava no fogo. Com rapidez, ele toma a concha e se queima o polegar.
- Meu filho – disse o chefe da cozinha – você terá de agora em diante uma calosidade na base do polegar. Guarde-a como se tua vida disto dependesse.
Anwar viveu ainda numerosos meses dentro do monastério. Então um dia ele foi convocado na sala de reuniões onde os dervixes se reuniam para o jantar. No final da mesa estava sentado um príncipe altaneiro, o semblante confiante, vestido magnificamente. Todos, em silêncio, o escutaram contar uma história longa e complicada. Como vindo dentro dele mesmo, Anwar escutou a voz do príncipe lhe dizendo:
- Lembre-se dessa história e guarde-a como se tua vida disto dependesse.
Após se passarem muitos dias, Anwar recebeu a ordem de ir ao jardim ao local mesmo onde ele havia visto o dervixe no dia de sua chegada. Ele o encontra na mesma posição, sentado em contemplação. O dervixe levanta a cabeça:
- Anwar, você agora você está pronto para prosseguir sua busca. Você vai conseguir porque eu te dei “A arte que ninguém possui”.
- Eu não compreendo o que é.
- Se você pensa compreender a Arte, você não a compreende. Mas se você pensa não compreender, você pode praticá-la sem entraves.
- Continuo sem entender – disse Anwar.
- Se você tivesse nos deixado nunca teria aprendido. E se agora te faço sair, você aprenderá. Se você tentar voltar, não aprenderá. Se você tiver necessidade de ajuda, eu aparecerei.
- Por que isto? – perguntou Anwar um pouco desnorteado.
- Porque, fora algumas coisas que você tem, eu sou uma parte desta “Arte que ninguém possui”: ela não pode ficar em você, então ela deve ser guardada em mim!
Anwar se dirigiu ao portão da fortaleza. Assim que passa perto do guardião da entrada, ele o olha e reconhece o dervixe que acabara de lhe falar. Do lado de fora, ao pé da muralha, estavam o chefe dos jardins, o chefe da cozinha e o chefe do monastério como também todos aqueles com quem ele havia convivido após ter passado a entrada do monastério. Todos tinham, sem exceção o semblante do dervixe que ele havia encontrado pela primeira vez na beira do caminho, um pouco antes do topo da colina, depois de ter deixado a casa de sua mãe.
“Eu nunca vou compreender”, se disse Anwar. Apesar disso ele segue seu caminho.
Quando ele retorna o rosto, viu que o monastério não estava mais lá. Até a estrada que se abria diante dele tinha mudado…. Em lugar de levá-lo para casa, ela ia numa direção totalmente diferente. Anwar avança apesar de tudo.
Após dias e dias de caminhada, ele entra numa imensa cidade iluminada. Ele pergunta onde estava.
- Você está na Capital do Império – respondeu um transeunte. Anwar pergunta então quantos anos se haviam passado depois do ano em que ele tinha partido. O homem o olha com espanto e desconfiança: “…Ora…um ano apenas” disse o homem. E portanto por seus cálculos, Anwar tinha certeza de ter passado no monastério mais de trinta anos.
E foi assim que ele se deu conta que o tempo não era o mesmo em todos os lugares.
No centro da cidade, Anwar passa perto de um poço profundo de onde se ouvia gritos. Uma corda descia até o fundo. Ele começa a puxar, enquanto uma multidão se juntava a sua volta. Ele puxa e puxa com todas suas forças, e estava quase a ponto de largar a corda, mas graças ao calo na base do polegar, ele pode suportar a terrível fricção.
Por fim, um homem surge do poço. Ele agradece a Anwar, depois diz:
- Deve ser você o Homem-Vindo-de-longe sobre o qual estava previsto que seria o único que poderia me salvar. Sou o Primeiro Ministro de Sua Majestade Imperial, e fui aprisionado neste poço por um djin…. Você será recompensado!
E tendo dito isto, saiu dali.
Anwar ainda estava sob o efeito da surpresa quando uma estranha e terrível criatura salta sobre ele.
- Ha, ha! filho do homem – grita a criatura – tu és minha presa e vou te comer vivo, como eu como todos aqueles que tenho vontade de devorar nesta cidade. Nós, djins, somos os mestres das ruas da capital e ninguém pode nos opor resistência a menos que possua o cristal de Salomão, filho de David, que acorrenta todos os djins da terra!
Ao escutar isto, Anwar com um gesto rápido pega em seu bolso o cristal e o coloca em frente ao djin que no mesmo instante explode em chamas e desaparece na distância.
Anwar tinha ainda o cristal em suas mãos, quando viu um cavaleiro a galope vindo em sua direção:
- Sou mensageiro do Imperador! Estava previsto que aquele que libertasse o ministro seria capaz de dominar os djins. Este homem deve ter recebido a chave do quarto encantado onde a princesa vive prisioneira. Aquele que conseguir abrir a porta do quarto, será o esposo da princesa e governará o reino quando Sua Majestade Imperial se for.
Anwar sobe na garupa do cavalo, e rapidamente eles parte para o palácio. O mensageiro o conduz até a entrada de um quarto. Awar introduziu a chave na fechadura, o porta se abriu e ele vê a mulher mais bela que os olhos de um homem jamais contemplaram. Era a princesa, é claro. Ela caminha para ele. No mesmo instante em que seus olhares se encontraram, eles se apaixonaram um pelo outro.
E foi assim que Anwar o pobre, esse jovem que vivia num casebre no fundo da província, casou-se com a princesa Salma e, quando chegou o momento, torna-se imperador. Anwar e Salma ainda governam o império.
A história que o príncipe orgulhoso havia contado na mesa do monastério continha, como eles perceberam, todos os elementos necessários à instauração de um reino de justiça, de paz e de prosperidade. Cada vez que eles mesmos ou o país ou seu filhos se encontravam em face a alguma dificuldade, Anwar e Salma constatavam que eles eram capazes de utilizar suas experiências, de se servir de objetos mágicos que os havia sido dado e de colocar em prática os conselhos do misterioso dervixe, que nunca deixou de aparecer quando eles tinham necessidade dele.
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NARRADOR: Dizem que os soberanos estão melhor situados para penetrar as obscuridades da mente. Porém para isso é necessário que a sua esteja clara. A Tradição Sufi nos conta o seguinte: Um sultão ouviu falar de um grande sheik, um mestre muito respeitado, que vivia em Anatólia e que contava com centenas de milhares de fiéis. O sultão, assustado por aquela força, pela qual se sentia ameaçado, convocou ao sheik a Istambul e lhe perguntou:
SULTÃO: O que é que ouço dizer? Que tens centenas de milhares de homens dispostos a morrer por ti?
SHEIK: Oh, não! – disse o sheik – Somente tenho um e meio.
SULTÃO: Então, por que me contam que poderias sublevar todo o país? Vamos ver. Que todos os homens se reúnam amanhã de manhã no campo, fora da cidade.
NARRADOR: Por toda a parte se proclamou que os fiéis do sheik teriam que reunir-se na manhã seguinte no campo, porque ali estaria o sheik em pessoa. Numa parte alta, que dominava o campo, o sheik fez instalar uma tenda. Dentro prendeu vários cordeiros, que ninguém podia ver. Os fiéis acudiram em grande número. O sultão, que estava de pé diante da tenda com o sheik, lhe disse:
SULTÃO: Tu me disseste não ter mais que um fiel e meio. Olha! Há milhares deles! Dezenas de milhares!
SHEIK: Não. Eu só tenho um fiel. Agora verás. Anuncia que cometi um crime e que irás condenar-me à morte, a menos que um de meus fiéis se sacrifique por mim.
NARRADOR: O sultão assim o fez, provocando um grande murnúrio entre a multidão. Um homem se adiantou e declarou:
HOMEM: Ele é meu Mestre. Devo-lhe tudo o que sei. Eu dou minha vida por ele.
NARRADOR: O sultão o fez entra na tenda e ali, imediatamente, seguindo as indicações do sheik, cortaram o pescoço de um cordeiro. Todos os assistentes viram aparecer sangue por baixo da tenda. Naquele instante o sultão declarou:
SULTÃO: Uma vida não é suficiente. Algum outro fiel está disposto a sacrificar-se pelo sheik?
NARRADOR: Por trás do silêncio sepulcral que se seguiu e durou vários minutos, uma mulher avançou e se declarou disposta. A fizeram entrar na tenda e cortaram o pescoço de outro cordeiro. A multidão, ao ver o sangue, começou a dispersar-se. Em pouco tempo não restou ninguém no campo. O sheik disse ao sultão:
SHEIK: Vês? Somente tenho um fiel e meio.
SULTÃO: Então, o homem é o fiel verdadeiro e a mulher meio?
SHEIK: Não, não – contestou – Ao contrário. Porque o homem não sabia que lhe iriam cortar o pescoço na tenda. Já a mulher viu o sangue e sem dúvida avançou. Ela é a verdadeira fiel.
LIVRO: “O Círculo dos Mentirosos” – Jean-Claude Carrière
Editorial Lumen
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